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The Trade Section of the DTT supports the efforts of Member States to promote economic diversification and integration, trade liberalization, and market access that can lead, through expanded market and investment opportunities, to enhanced economic development, job creation, and poverty reduction. |
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Política Industrial e Globalização José Tavares de Araujo Jr. Este artigo foi preparado para o Seminário sobre o Reino Unido e o Brasil, organizado pelo Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais do Ministério das Relações Exteriores. Rio de Janeiro, 18 e 19 de setembro de 1997. Sumário
I. Introdução
Este artigo discute as similitudes e disparidades dos
atuais estilos de inserção internacional das economias
brasileira e britânica. O principal foco de análise é
a indústria de telecomunicações, cujas
características permitem ilustrar pelo menos três temas
relevantes. Conforme procuro mostrar adiante, esta
indústria é um dos núcleos de convergência do
processo de mudança tecnológica que sustenta as
tendências contemporâneas de globalização dos
mercados e de regionalização das estruturas produtivas.
Devido a essa peculiaridade, as condições de
concorrência nessa indústria geram evidências úteis
para delimitar o escopo ainda existente para a
implementação de políticas industrais por parte de
governos nacionais. Além disso, a reforma institucional
promovida pelo governo britânico no setor de
telecomunicações durante os anos 80 tornou-se uma das
fontes inspiradoras das novas teorias sobre regulação
industrial, e constitui, portanto, uma referência
oportuna para o debate em curso no Brasil sobre tais
questões.
O texto está organizado da seguinte maneira: A
seção II apresenta os instrumentos analíticos que
serão usados na discussão subsequente. O argumento ali
desenvolvido parte da constatação de que, desde o final
da década de 70, os custos de transação entre os
agentes econômicos estão caindo mais rapidamente do que
os custos de produção. Tal mudança explica os novos
padrões de competição internacional, e também gera
demandas inéditas no âmbito das políticas
governamentais. Com base nesse marco conceitual, a
seção III analisa as políticas que orientaram o
crescimento da indústria de telecomunicações no Reino
Unido e no Brasil, e mostra que, em princípio, não
existe qualquer antagonismo entre política industrial e
globalização. A seção IV contrapõe o argumento,
através de uma breve comparação entre as políticas de
comércio exterior dos dois países, com o objetivo de
destacar os mecanismos de intervenção estatal que se
tornaram obsoletos. Por fim, a seção V resume as
principais conclusões.
II. Marco Conceitual
Os padrões de concorrência internacional vigentes na
presente década constituem o resultado da interação de
três fenômenos interdependentes desenvolvidos ao longo
dos últimos 15 anos:
o declínio nos custos de
transação entre os agentes econômicos, produzido pelas
inovações tecnólogicas nas indústrias de
computadores, software e telecomunicações;
os novos
padrões de especialização produtiva e de gestão
empresarial, marcados pela redução do escopo de
diversificação das firmas e pela proliferação das
práticas de subcontratação;
as tendências simultâneas de globalização de mercados e de
regionalização das estruturas industriais.
A origem destas mudanças residiu na dramática
redução ainda em curso nos custos de
processar, transmitir e analisar grandes volumes de
dados. A figura 1 revela a magnitude desse evento
através de um indicador inequívoco: a evolução do
índice de preços "hedônicos" de computadores
pessoais vendidos nos Estados Unidos entre 1980 e 1995,
calculado pelo Bureau of Economic Analysis,
órgão do Departamento de Comércio do governo
americano. Este índice descreve as variações de
preços ponderadas pelas inovações introduzidas nos
computadores a cada ano, levando em conta o tamanho de
memória, velocidade de processamento e capacidade do
disco duro. Assim, para os agentes econômicos
estabelecidos no mercado americano em 1995, a capacidade
de processar informações era, em média, cerca de 13
vezes superior aos níveis vigentes em 1980! Tais condições afetam uma decisão estratégica que
qualquer empresário toma periodicamente, que é a
definição do escopo de atividades da firma e, em
particular, de seu grau de integração vertical. O
parâmetro básico desta decisão é a relação entre
custos de produção e custos de transação, a seguir
denominada de p,
sendo que os custos de transação resultam
essencialmente do grau de imperfeição do sistema de
informações vigente no mercado, como arguiu Dahlman
(1979). Logo, em princípio, a relação p varia inversamente ao
grau de dispersão das atividades da firma, e os dados da
figura 1 sugerem que p
tem sido crescente para a maioria dos setores
industriais. De fato, o estudo de
Markides (1995) sobre a
reestruturação industrial da economia americana nos
anos 80 mostrou que a tendência em direção à
diversificação e à integração vertical, que havia
vigorado durante cerca de 50 anos naquele país,
reverteu-se rapidamente naquela década. Segundo o
padrão atual, as empresas procuram concentrar-se
exclusivamente naquelas atividades que conseguem produzir
de acordo com os requisitos da fronteira tecnológica, e
subcontratam todas as demais componentes do vetor de bens
que elas oferecem no mercado. Indice de Preços
Hedônicos de Computadores Pessoais (1982=100) Fonte: U.S. Bureau of
Economic Analysis Assim, a subida da relação p promove simultaneamente a
redução do escopo de atividades de certas empresas e a
expansão de oportunidades de mercado para outros
produtores cujas estruturas de custo sejam mais adequadas
para ofertar os bens e serviços que foram descontinuados
no primeiro grupo de firmas. Em condições de livre
comércio, tais oportunidades podem ser exploradas
indiferenciadamente por fabricantes locais ou do
exterior. Entretanto, no caso de insumos intermediários
e serviços subcontratados, as empresas compradoras
preferem em geral utilizar fornecedores situados nas
proximidades de suas instalações, devido às
limitações de tempo e aos custos de manutenção de
estoques. Em síntese, a queda nos custos de informação
gera novas estratégias de sobrevivência das firmas
domésticas, eleva seu poder de competição e altera a
inserção internacional do país. Por um lado, crescem
os fluxos intra-industriais com os países vizinhos e,
por outro, o comércio de bens finais com o resto do
mundo. Tais mudanças correspondem a uma nova agenda de
política industrial, na qual perdem eficácia alguns
instrumentos, como barreiras comerciais e índices de
nacionalização, e adquirem relevância novos temas,
como os de captura e informação assimétrica. No
passado, quando o governo decidia promover uma
determinada indústria através, por exemplo, de tarifas
aduaneiras e estímulos à integração vertical, a
avaliação dos efeitos de curto prazo dessa política
podia ficar restrita aos impactos sobre os preços
domésticos e às transferências de rendas. As
consequências sobre os custos de transação, ainda que
existentes, podiam ser abstraídas da análise, dado que
não afetavam as estratégias dos agentes econômicos.
Atualmente, além de ser incluída entre os custos
relevantes da proteção, esta parcela precisa ser
analisada também sob a ótica das distorções que
introduz nas relações interindustriais, ao impedir que
as firmas domésticas adotem os padrões de gestão
empresarial adequados às tecnologias disponíveis. Tal como no passado, o objetivo básico da política
industrial continua ser o de promover sistemas produtivos
eficientes, aptos a acompanhar o rítmo do progresso
técnico internacional. De acordo com a teoria
microeconômica, uma indústria é eficiente quando sua
configuração é sustentável, isto é, quando o número
de firmas ali estabelecido e seus respectivos vetores de
produção são aqueles que permitem minimizar os custos
de atendimento à demanda existente. Ocorre que
frequentemente as configurações sustentáveis são
oligopólios ou monopólios, o que obriga o governo ao
delicado exercício de conciliar os instrumentos de
promoção industrial com os da defesa do interesse
público. Assim, estratégias industriais restritas ao
primeiro objetivo correm o risco de se tornarem
prisioneiras do poder econômico das grandes empresas,
gerando apenas rendas monopolistas e mercados
ineficientes. Entretanto, uma regulação bem sucedida de
setores concentrados depende de que seja contornado o
problema da assimetria de informações. Para impor uma
conduta virtuosa à indústria, o governo precisa de
instrumentos que compensem sua ignorância quanto às
tecnologias e às estruturas de custos vigentes, cujo
conhecimento completo é exclusivo das empresas alí
estabelecidas. Em suma, a atual agenda de política industrial supera
em extensão e complexidade o temário que vigorava há
cerca de 20 anos. O processo de globalização de
mercados está destruindo gradualmente os atrativos do
protecionismo convencional, à medida em que acentua a
necessidade de mecanismos que compatibilizem as metas de
eficiência produtiva, transparência das regras do jogo
e bem estar do consumidor, como ilustra o relato a
seguir. III.
A Indústria de Telecomunicações Na literatura sobre teoria da regulação, o setor de
telecomunicações é citado recorrentemente. O destaque
não é casual, já que este ramo é um dos núcleos de
convergência das inovações que estão reunindo sob um
único complexo industrial os setores de telefonia,
televisão, computadores, software, automação
industrial e eletrônica de consumo. Estas inovações
criam novos vínculos de insumo-produto e padronizam os
requerimentos de qualidade, tanto no interior do complexo
quanto em outros segmentos da economia tão diversos como
os de editorial e gráfica, bancos, serviços de
consultoria e publicidade. No âmbito das condições de
concorrência, a convergência tecnológica implica uma
contínua revisão dos critérios para dimensionar
mercados relevantes, barreiras à entrada, economias de
escopo, padrões de produtividade e poder de mercado.
Esta seção revê a conduta dos governos do Reino Unido
e do Brasil diante destas questões. III.1. A Experiência Britânica Entre a vitória da Sra. Thatcher em maio de 1979 e o
início de seu terceiro mandato em junho de 1987, a
participação das empresas estatais no produto interno
bruto do Reino Unido caiu de 11.5% para 7.5%, e mais de
quinhentos mil empregados foram transferidos para o setor
privado (vide Vickers e Yarrow, 1988). Do ponto de vista
da inserção internacional da economia britânica, o
principal aspecto a destacar nesse processo foi a
redefinição dos instrumentos de política industrial do
país. A experiência pioneira ocorreu na indústria de
telecomunicações, que serviu de modelo para outros
serviços públicos como o suprimento de água, gás e
eletricidade, e posteriormente tornou-se referência
obrigatória na literatura internacional sobre
regulação e concorrência. Pelas razões apontadas na seção anterior, o
processo de privatização no Reino Unido não significou
a substituição do Estado pelas forças do mercado, mas
uma estratégia de longo prazo visando estabelecer um
sistema industrial doméstico apto a acompanhar os novos
padrões do progresso técnico internacional. A
estratégia incluiu todos os elementos clássicos da
política industrial, como a escolha do número de firmas
autorizadas a operar no país e a consequente reserva de
mercado para os produtores já estabelecidos, controle de
preços e da qualidade dos produtos ofertados, e a
surpervisão das condições de concorrência vigentes na
indústria. Como qualquer empreendimento de longo prazo,
a estratégia compreendeu três fases bem delimitadas. A
primeira, entre 1981 e 1984, foi a da preparação do
novo marco institucional. A antiga empresa estatal British
Telecom (BT) foi desvinculada do Post Office e
o governo anunciou a intenção de privatizá-la. Outros
fatos relevantes desse período incluem a criação da
nova agência reguladora, Oftel (Office for
Telecommunications), a autorização para que a empresa Mercury
entrasse no mercado, a introdução do regime de controle
de preços e a venda de 50.2% das ações de BT. A
segunda fase, de 1985 a 1991, foi a do amadurecimento do
novo modelo de intervenção estatal, quando o setor de
telecomunicações esteve restrito ao duopólio
BT-Mercury. A fase atual, posterior a 1992, pode ser
definida como a da consolidação do modelo. Dentre os
eventos mais importantes, cabe destacar a entrada de
novas firmas no setor, a privatização do lote final de
ações de BT, e o atual processo de compra da empresa
americana MCI por BT. Uma peculiaridade do modelo britânico de
privatização foi a de conferir prioridades idênticas
aos problemas de promoção industrial e de captura. Por
um lado, o Oftel controlava rigorosamente as variáveis
definidoras da estrutura industrial e do processo de
concorrência, através dos critérios de licenciamento,
das normas de qualidade, das regras de fixação de
preços e da distribuição de privilégios. Por outro
lado, a conduta das firmas estabelecidas na indústria
estava também limitada por mecanismos adicionais
descritos adiante e pelo papel de reguladores de última
instância exercido pelas autoridades de defesa da
concorrência, o Office of Fair Trading (OFT) e a Monopolies
and Mergers Commission (MMC). O princípio orientador da estratégia implementada
por Oftel foi o de que os níveis de eficiência
produtiva de qualquer indústria em determinado momento
constituem o resultado dos investimentos e da
experiência pregressa acumulados pelas firmas
estabelecidas naquele ramo. Assim, em 1982, quando os
estudos de mercado indicaram que a configuração
sustentável para o setor de telecomunicações no Reino
Unido era um duopólio, o Oftel não só autorizou a
entrada da Mercury como assegurou que, pelo menos por
sete anos, as duas firmas não seriam surpreendidas com a
entrada de novos competidores no setor. Além disso, era
necessário reduzir o poder de mercado de British Telecom
para que o duopólio se tornasse factível. Tal objetivo
foi alcançado através da política de preços, da
interferência no relacionamento entre os dois
concorrentes e da concessão de certas regalias
exclusivas à Mercury (vide Cave e Williamson, 1996). O Oftel estabeleceu um regime de controle de preços
engenhoso e simples, conhecido como RPI - X (Retail
Price Index com um determinado desconto),
que atualmente é utilizado em todas as indústrias
reguladas no Reino Unido. O regime tem duas regras
básicas:
apenas a empresa líder é controlada, e o
teto fixado pelo governo se aplica à media dos preços
praticados pela empresa;
o valor de X, isto é, o
desconto a ser aplicado sobre o índice de preços ao
consumidor, é válido por um amplo período de tempo.
Nocaso de telecomunicações, BT esteve submetida a quatro
tetos crescentemente restritivos desde 1984: RPI - 3,
até 1989; RPI - 4.5, de 1989 a 1991; RPI - 6.25, no
período 1991/ 1993; e RPI - 7.5, entre 1993 e 1997.
Segundo o governo, esse regime foi escolhido por três
motivos (vide Armstrong et al., 1994, cap. 6). Em
primeiro lugar, por ser transparente e pouco vunerável
à captura. Em segundo, porque praticamente não envolve
custos burocráticos de surpervisão, dada a simplicidade
das regras. Em terceiro, porque estimula a eficiência,
já que qualquer inovação redutora de custos pode ser
apropriada pela empresa líder, ao contrário do que
ocorre com outras formas de regulação, como, por
exemplo, o controle sobre as margens de lucro. De fato,
conforme indica a figura 2, esta hipótese mostrou-se
correta. Não obstante todas as restrições que lhe
foram impostas, o desempenho de BT após a privatização
tem sido notável. Entre 1981 e 1992, seu lucro
operacional cresceu a uma taxa anual média de 15%, seu
faturamento expandiu-se em cerca de 10% ao ano, enquanto
que seu volume de emprego manteve-se praticamente
inalterado, com uma leve tendência ao declínio. Indicatores de
Desempenho de British Telecom (19811992) Fonte: Armstrong et al.,
1994 Cabe notar que os indicadores de desempenho descritos
na figura 2 foram acompanhados por um significativo
aumento na qualidade e na extensão dos serviços de
telecomunicações do Reino Unido. Segundo os dados de
Oftel, o percentual de chamadas telefônicas
interrompidas caiu de 4.3% em 1987 para 0.3% em 1992,
enquanto que os serviços de reparo realizados em até
dois dias úteis subiram de 74% para cerca de 98% durante
o mesmo período. Além disso, o número de domicílios
com telefone, que era de apenas 42% em 1972, atingiu a
cerca de 90% em 1991 (cf. Armstrong et. al, 1994). No
Brasil, os processos de privatização e de revisão dos
instrumentos reguladores do setor de telecomunicações
encontram-se ainda em fase inicial, e a comparação com
o caso britânico é relevante não só devido aos seus
resultados, como também porque auxilia a avaliação da
experiência brasileira das últimas três décadas. O
marco institucional que orientou a instalação da atual
indústria de telecomunicações no Brasil foi definido
pela Lei 4117, de dezembro de 1962, que aprovou o Código
Brasileiro de Telecomunicações, cujos objetivos gerais
eram bastante similares aos do British Telecommunications
Act de 1981. Tratava-se de dotar o país dos mecanismos
apropriados para o planejamento de longo prazo, visando a
expansão e a modernização do setor segundo os novos
padrões internacionais de tecnologia (vide Moreira,
1989). De fato, o novo marco institucional só começou a
operar a partir de 1965, com a criação da Empresa
Brasileira de Telecomunicações, Embratel, órgão
estatal encarregado de explorar com exclusividade as
ligações internacionais. O rápido crescimento da
Embratel nos anos seguintes foi financiado pelo Fundo
Nacional de Telecomunicações (FNT), cujos recursos eram
originários do Orçamento da União, das tarifas
operacionais e de uma sobretaxa sobre os serviços
telefônicos. O principal obstáculo a ser enfrentado
naquele momento era o de providenciar a unificação
técnica da rede nacional, marcada por grande
heterogeneidade de equipamentos, o que resultava em
custos operacionais superiores aos padrões
internacionais e serviços de qualidade precária. Os instrumentos adicionais para lidar com esse
problema foram providos em seguida pelo Governo. Em 1967
foi constituído o Ministério das Comunicações
(Minicom), que passou a centralizar as funções
normativas, de planejamento, de financiamento e de
fiscalização. Sob a jurisdição do Minicom estavam o
Conselho de Telecomunicações (Contel), órgão
normativo e de planejamento, a administração do FNT, e
a supervisão das empresas do setor, incluindo a Embratel
e as companhias telefônicas estaduais. Finalmente, em
1972 o marco institucional estava completo, com a
formação da empresa holding Telebrás, cujo
papel seria o de harmonizar condutas e distribuir
encargos entre as empresas do setor. A estratégia implementada pelo Minicom nos anos 70 e
80 coincidiu em certos pontos com a do Reino Unido no
período posterior a 1979, não obstante as demais
peculiaridades de ambas experiências. Conforme vimos, as
metas do modelo britânico restringiam-se à eficiência
do sistema de telecomunicações e aos mecanismos que
assugurassem a transferência dos benefícios alcançados
aos consumidores finais. Além disso, como observou Hay
(1997), a legislação daquele país é isenta de traços
nacionalistas. Qualquer investidor estrangeiro está
submetido rigorosamente às mesmas regras que valem para
seus competidores locais. No Brasil, o governo definiu o
desenvolvimento do setor de telecomunicações como parte
de uma estratégia mais ampla que visava corrigir outras
deficiências do país, através de investimentos em
educação, sobretudo de nível universitário, da
expansão do sistema gerador de ciência e tecnologia, e
da proteção aos fabricantes locais de bens de capital. Assim, como descreveu Moreira: "Já no seu
primeiro ano de funcionamento, a Telebrás diagnosticava
como um dos principais problemas do setor de
telecomunicações a dependência tecnológica. Com base
nessa avaliação, iniciou um programa de P&D
desenvolvido através de projetos conjuntos com grupos
universitários, cujos objetivos eram: busca de autonomia
tecnológica, formação de recursos humanos para
telecomunicações e o fortalecimento do parque
industrial nacional. Procurava-se articular um modelo de
P&D em que cada um dos seus participantes, vale
dizer, o Sistema Telebrás, a universidade e a
indústria, tivesse funções definidas. A universidade
encarregar-se-ia da formação de recursos humanos, da
pesquisa básica e da geração da tecnologia de produto
e de processo ao nível de laboratório; às operadoras
do Sistema Telebrás caberiam a implantação dos
produtos desenvolvidos e o desenvolvimento das rotinas de
implantação e manutenção; e, por fim, a fabricação
de equipamentos e seus componentes seria de incumbência
da indústria (1989, p.65)." Entre 1973 e 1976, a Telebrás financiou as atividades
de cerca de 10 grupos de trabalho em quatro entidades:
Universidade de São Paulo (USP), Instituto Tecnológico
da Aeronautica (ITA), Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp) e Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro (PUC/RJ). Os convênios de pesquisa cobriam desde
projetos de amplo escopo nas áreas de fibras ópticas,
semicondutores e microeletrônica, até aplicações
específicas em temas mais restritos, como, por exemplo,
técnicas digitais, codificação por pulsos e
radiopropagação. Tais atividades levaram à criação,
em 1976, do CPQD, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento
da Telebrás, que daí em diante passaria a coordenar a
política tecnológica do Minicom. Complementarmente, no
plano da política industrial, o poder de compra da
Telebrás era usado para acelerar a substituição de
importações no setor, com base nos critérios de elevar
o conteúdo local dos bens e serviços adquiridos pelo
governo, conferir privilégios especiais às firmas sob
controle de capitais brasileiros, e incentivar os
produtos e processos desenvolvidos no país. Os resultados produzidos por esses empreendimentos
até meados dos anos 80 foram bem inferiores às
expectativas iniciais do Minicom, conforme arguiu Moreira
(1989), e a crise fiscal que marcou aquela década no
país contribuiu para restringir ainda mais as
possibilidades de sucesso nos anos subsequentes. Não
obstante a magnitude dos investimentos realizados a
partir de 1965, a densidade telefônica no Brasil era de
apenas 7.3 aparelhos para cada 100 habitantes em 1983,
abaixo de outros países como a África do Sul, Argentina
e México, e bem distante dos padrões vigentes entre as
economias da OECD. Como indica a tabela 1, esta
situação permanece praticamente inauterada até os dias
atuais. A principal mensagem advinda de uma comparação entre
as experiências britânica e brasileira é a de que os
processos de privatização e de reforma dos marcos
reguladores implicam uma estratégia industrial cujos
ingredientes são bastante familiares ao público
brasileiro. De fato, controle de preços, fixação de
metas de longo prazo, reserva de mercado e distribuição
de privilégios foram medidas aplicadas à maioria dos
segmentos industriais do país nos últimos 60 anos. Cabe
registrar, contudo, uma ressalva quanto ao foco da
estratégia, já que os problemas de telecomunicações
são suficientemente complexos para merecerem a atenção
exclusiva das autoridades pertinentes, e que as demais
deficiências nacionais sejam enfrentadas por outras
instâncias do governo e da sociedade. Tabela 1: 1983
1995
Suécia
85.6
68.1
Suiça
77.6
61.3
Estados Unidos
71.0
62.6
França
54.1
55.8
Austrália
53.7
51.0
Japão
53.0
48.8
Inglaterra
51.0
50.2
Itália
38.2
43.3
Espanha
33.7
38.5
África do Sul
13.4
9.5
Argentina
9.2
16.0
México
9.0
9.6
Brasil
7.3
7.5 Fontes:
Moreira (1989),
ITU (1997) IV. Políticas de Comércio Exterior O Brasil e o Reino Unido são nações com pautas
comerciais diversificadas. Em 1995, por exemplo, o
comércio exterior britânico tinha a seguinte estrutura:
54% com os demais membros da União Européia, 14% com os
países do Nafta, e 32% com o resto do mundo. Naquele
ano, a pauta brasileira foi composta de: 16% com os
parceiros do Mercosul (inclusive Chile e Bolívia), 23%
com o Nafta, e 61% com o resto do mundo. É pertinente,
portanto, comparar os instrumentos de política comercial
dos dois governos. Esta seção aborda brevemente três
aspectos: as tarifas de importação e as políticas para
as indústrias de automóveis e de computadores. No período 1988¤1993, o
governo brasileiro implementou uma reforma comercial que
mudou radicalmente as condições de concorrência no
país. Após seis décadas de crescimento econômico
baseado em políticas de substituição de importações,
a indústria doméstica foi exposta, pela primeira vez,
à concorrência de bens importados. A nova estrutura
tarifária visava conferir um nível estável e
homogêneo de proteção efetiva ao sistema produtivo.
Assim, em julho de 1993 a alíquota média de proteção
efetiva era de 14,5%, e apenas alguns setores estavam
fora do intervalo 10% 20%, com a notável
exceção da indústria automotiva, cuja alíquota era de
130% (ver Kume, 1996). Todavia, depois de julho de 1994
as regras de importação se tornaram voláteis, a fim de
acomodar o volume de comércio exterior às necessidades
de curto prazo do Plano Real. Na primeira fase, que durou
até dezembro daquele ano, o objetivo do governo era
impor um declínio rápido aos preços internos através
da valorização da moeda e de reduções tarifárias
adicionais para bens que tivessem impacto significativo
nos índices de inflação. Produtos alimentícios e
insumos básicos foram as metas preferidas, e a
conseqüência imediata foi a ampliação da faixa de
proteção efetiva, já que alíquotas mais baixas sobre
insumos elevam a taxa de proteção dos bens finais. Em 1995, o principal problema macroeconômico já não
era a disciplina dos preços, mas o déficit comercial. E
as restrições às importações retornaram. Entre julho
de 1994 e setembro de 1996, das 13.428 posições
tarifárias que formam o Sistema Harmonizado brasileiro,
11.183 itens foram mudados, dos quais 939 sofreram mais
de três variações. Bens de capital e insumos
intermediários estiveram entre os mais afetados, sendo
suas regras de importação mudadas mais de cinco vezes!
(ver Baumann et al., 1997)
Dados os vínculos de encadeamento desses setores, essas mudanças significaram
preços relativos instáveis para toda a economia. A
tabela 2 mostra alguns exemplos de oscilações
específicas, que incluíram produtos variados, como
automóveis, aparelhos telefônicos, detergentes,
pesticidas, filamentos sintéticos e máquinas de
embalar. É razoável supor que essa volatilidade seja
transitória, tanto por motivos domésticos quanto pelos
compromissos firmados no Mercosul, nas negociações
correntes visando criar uma Área de Livre Comércio das
Américas (Alca), e na Organização Mundial do
Comércio. A médio prazo, a política comercial
brasileira será provavelmente similar à do Reino Unido
e de outras economias industrializadas, cujo traço
fundamental é a estabilidade das normas de acesso aos
mercados. Nos últimos 20 anos, por exemplo, as tarifas
britânicas de importação só mudaram em consequência
das rodadas multilaterais de negociações do GATT e das
decisões tomadas no âmbito da União Européia.
Atualmente, a alíquota nominal média aplicada aos
países não membros da UE é de 3.7%, com uma
distribuição cujo valor máximo para bens manufaturados
é de 22%, embora, na maioria dos itens, os valores sejam
inferiores a 10% (ver WTO, 1995). Entretanto, enquanto permanecerem incertas as
condições de concorrência no Brasil, as firmas
estabelecidas no país estarão incapacitadas de avaliar
corretamente suas estruturas de custo, e, em particular,
a relação p, entre
custos de produção e custos de transação.
Consequentemente, não saberão identificar as
estratégias mais adequadas para enfrentar a competição
internacional, pelas razões que indiquei na seção II.
Esta situação cria um círculo vicioso, no qual as
regras instáveis geram pressões protecionistas, que por
sua vez provocam mudanças adicionais na política
comercial. Tabela 2:
Fonte: Baumann et al. (1997)
Nesse contexto de incerteza, a distribuição de benesses governamentais tem obedecido à hierarquia do poder econômico, como bem ilustra a política de importação de automóveis, registrada na tabela 2. Após uma breve tentativa de reduzir a proteção nominal para 20% em setembro de 1994, cinco meses depois o governo elevou a tarifa para 70%, e em dezembro de 1995 criou novos incentivos que superaram os de qualquer outro setor da economia. Através do Decreto nº 1.761, o governo reeditou a coleção de mecanismos clássicos da época da substituição de importações: quotas, níveis mínimos de insumos domésticos, isenções de impostos condicionadas ao desempenho exportador, projetos discriminados por empresas, revisões periódicas dos incentivos, etc. A indústria automotiva é um oligopólio internacional com longa tradição de influenciar tratados comerciais e políticas nacionais. O pacto Canadá Estados Unidos de 1965, a política brasileira de promoção de exportações nos anos 70 e 80, o acordo VER entre Estados Unidos e Japão de 1981 e as oscilações tarifárias listadas na tabela 2 são apenas alguns exemplos dessa tradição. Devido ao tamanho da indústria e aos seus vínculos intersetoriais, as decisões de investimento feitas pelas montadoras costumam gerar impactos não só no nível de emprego e nas condições de crescimento macroeconômico, mas também no balanço de pagamentos e no ritmo de progresso técnico do país. Como essas cifras podem ser facilmente transformadas em poder político, os fabricantes de automóveis têm sido capazes de extrair privilégios governamentais no mundo inteiro há várias décadas. Reconhecendo a importância econômica e o poder político dessa indústria, a União Européia firmou em 1989 um protocolo com as seguintes diretrizes gerais:
Os Estados Membros devem apresentar relatórios anuais descrevendo todos os tipos de suporte concedidos a essa indústria, independentemente de seu valor, seguindo a mesma metodologia aplicada no ítem anterior. A assistência concedida através do European Investment Bank também é supervisionada. Com base nessas informações, a Comunidade examina o impacto dos projetos nos âmbitos macroeconômico, setorial, regional e social. Todavia, a avaliação final focaliza primordialmente as distorções provocadas nas condições de concorrência, tanto entre as firmas européias como em relação ao resto do mundo. Tal como no caso das tarifas aduaneiras, o governo brasileiro provavelmente adotará, a médio prazo, normas similares às do protocolo europeu, em virtude dos projetos de integração regional no âmbito do Mercosul e da Alca. Cabe notar, outrossim, que a proteção aos automóveis gera danos menores à sociedade brasileira do que a alíquota de 30% sobre as importações de computadores e outros produtos da indústria de informática. No primeiro caso, a despeito da magnitude dos custos de proteção, estes estão circunscritos aos preços e à qualidade dos carros vendidos no Brasil, e às margens de lucro das montadoras. No segundo caso, a medida não apenas onera genericamente os empreendimentos produtivos do país como dificulta outras atividades nas áreas da cultura e do lazer. Se comparada ao radicalismo da política de reserva de mercado que vigorou na década passada, a tarifa atual pode parecer razoável, sobretudo levando-se em conta que ela também é formalmente transitória. Segundo os compromissos acordados no Mercosul, até 2006 a alíquota brasileira deverá convergir em direção à Tarifa Externa Comum, cujos níveis, neste caso, variam entre 2 e 16%, dependendo do tipo de equipamento. Entretanto, se examinado sob a ótica das transformações tecnológicas discutidas na seção II (ver figura 1, pag. 4), um ônus de 30% sobre um insumo estratégico é suficiente para anular a racionaliade econômica de diversas atividades, particularmente aquelas mais sensíveis às variações nos custos de transação. Neste aspecto, o Brasil diverge do Reino Unido e dos demais 39 signatários do Acordo de Singapura, de dezembro de 1996, que eliminará os impostos de importação sobre produtos de informática até o ano 2000. Este grupo inclui países como Coréia do Sul, India e Japão, que até recentemente eram usuários tradicionais de políticas de crescimento baseadas em alíquotas aduaneiras. V. Conclusão Os estilos de inserção internacional das economias brasileira e britânica são convergentes em vários aspectos, como a abertura de mercados, a diversificação os parceiros comerciais, a regulação de serviços públicos e a participação em projetos regionais de integração. Em ambos os países existe uma longa tradição de intervenção estatal na economia, cujos instrumentos encontram-se em fase de adaptação às condições geradas pelos processos de globalização de mercados e regionalização das estruturas produtivas. Conforme vimos, a agenda de política industrial dos anos 90 expandiu-se e tornou-se mais sofisticada do que a de décadas anteriores. Existem, entretanto, três características divergentes entre os dois estilos, quanto à forma de conciliar o interesse público com a promoção industrial, à estabilidade das regras do jogo, e à coerência entre as diversas ações do governo. Nos três pontos o exemplo do Reino Unido serve de paradigma para orientar a conclusão das reformas em curso no Brasil.
Referências
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