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Trade and Integration

The Trade Section of the DTT supports the efforts of Member States to promote economic diversification and integration, trade liberalization, and market access that can lead, through expanded market and investment opportunities, to enhanced economic development, job creation, and poverty reduction.

Política Industrial e Globalização

José Tavares de Araujo Jr.


Este artigo foi preparado para o Seminário sobre o Reino Unido e o Brasil, organizado pelo Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais do Ministério das Relações Exteriores.

Rio de Janeiro, 18 e 19 de setembro de 1997.



Sumário

I. Introdução
II. Marco Conceitual
III. A Indústria de Telecomunicações
III.1. A Experiência Britânica
III.2. A Experiência Brasileira
IV. Políticas de Comércio Exterior
V. Conclusão
  Referências


I. Introdução

Este artigo discute as similitudes e disparidades dos atuais estilos de inserção internacional das economias brasileira e britânica. O principal foco de análise é a indústria de telecomunicações, cujas características permitem ilustrar pelo menos três temas relevantes. Conforme procuro mostrar adiante, esta indústria é um dos núcleos de convergência do processo de mudança tecnológica que sustenta as tendências contemporâneas de globalização dos mercados e de regionalização das estruturas produtivas. Devido a essa peculiaridade, as condições de concorrência nessa indústria geram evidências úteis para delimitar o escopo ainda existente para a implementação de políticas industrais por parte de governos nacionais. Além disso, a reforma institucional promovida pelo governo britânico no setor de telecomunicações durante os anos 80 tornou-se uma das fontes inspiradoras das novas teorias sobre regulação industrial, e constitui, portanto, uma referência oportuna para o debate em curso no Brasil sobre tais questões.

O texto está organizado da seguinte maneira: A seção II apresenta os instrumentos analíticos que serão usados na discussão subsequente. O argumento ali desenvolvido parte da constatação de que, desde o final da década de 70, os custos de transação entre os agentes econômicos estão caindo mais rapidamente do que os custos de produção. Tal mudança explica os novos padrões de competição internacional, e também gera demandas inéditas no âmbito das políticas governamentais. Com base nesse marco conceitual, a seção III analisa as políticas que orientaram o crescimento da indústria de telecomunicações no Reino Unido e no Brasil, e mostra que, em princípio, não existe qualquer antagonismo entre política industrial e globalização. A seção IV contrapõe o argumento, através de uma breve comparação entre as políticas de comércio exterior dos dois países, com o objetivo de destacar os mecanismos de intervenção estatal que se tornaram obsoletos. Por fim, a seção V resume as principais conclusões.

II. Marco Conceitual

Os padrões de concorrência internacional vigentes na presente década constituem o resultado da interação de três fenômenos interdependentes desenvolvidos ao longo dos últimos 15 anos:

  1. o declínio nos custos de transação entre os agentes econômicos, produzido pelas inovações tecnólogicas nas indústrias de computadores, software e telecomunicações;

  2. os novos padrões de especialização produtiva e de gestão empresarial, marcados pela redução do escopo de diversificação das firmas e pela proliferação das práticas de subcontratação;

  3. as tendências simultâneas de globalização de mercados e de regionalização das estruturas industriais.

A origem destas mudanças residiu na dramática redução — ainda em curso — nos custos de processar, transmitir e analisar grandes volumes de dados. A figura 1 revela a magnitude desse evento através de um indicador inequívoco: a evolução do índice de preços "hedônicos" de computadores pessoais vendidos nos Estados Unidos entre 1980 e 1995, calculado pelo Bureau of Economic Analysis, órgão do Departamento de Comércio do governo americano. Este índice descreve as variações de preços ponderadas pelas inovações introduzidas nos computadores a cada ano, levando em conta o tamanho de memória, velocidade de processamento e capacidade do disco duro. Assim, para os agentes econômicos estabelecidos no mercado americano em 1995, a capacidade de processar informações era, em média, cerca de 13 vezes superior aos níveis vigentes em 1980!

Tais condições afetam uma decisão estratégica que qualquer empresário toma periodicamente, que é a definição do escopo de atividades da firma e, em particular, de seu grau de integração vertical. O parâmetro básico desta decisão é a relação entre custos de produção e custos de transação, a seguir denominada de p, sendo que os custos de transação resultam essencialmente do grau de imperfeição do sistema de informações vigente no mercado, como arguiu Dahlman (1979). Logo, em princípio, a relação p varia inversamente ao grau de dispersão das atividades da firma, e os dados da figura 1 sugerem que p tem sido crescente para a maioria dos setores industriais. De fato, o estudo de Markides (1995) sobre a reestruturação industrial da economia americana nos anos 80 mostrou que a tendência em direção à diversificação e à integração vertical, que havia vigorado durante cerca de 50 anos naquele país, reverteu-se rapidamente naquela década. Segundo o padrão atual, as empresas procuram concentrar-se exclusivamente naquelas atividades que conseguem produzir de acordo com os requisitos da fronteira tecnológica, e subcontratam todas as demais componentes do vetor de bens que elas oferecem no mercado.

Figura 1

Indice de Preços Hedônicos de Computadores Pessoais (1982=100)

Fonte: U.S. Bureau of Economic Analysis

Assim, a subida da relação p promove simultaneamente a redução do escopo de atividades de certas empresas e a expansão de oportunidades de mercado para outros produtores cujas estruturas de custo sejam mais adequadas para ofertar os bens e serviços que foram descontinuados no primeiro grupo de firmas. Em condições de livre comércio, tais oportunidades podem ser exploradas indiferenciadamente por fabricantes locais ou do exterior. Entretanto, no caso de insumos intermediários e serviços subcontratados, as empresas compradoras preferem em geral utilizar fornecedores situados nas proximidades de suas instalações, devido às limitações de tempo e aos custos de manutenção de estoques. Em síntese, a queda nos custos de informação gera novas estratégias de sobrevivência das firmas domésticas, eleva seu poder de competição e altera a inserção internacional do país. Por um lado, crescem os fluxos intra-industriais com os países vizinhos e, por outro, o comércio de bens finais com o resto do mundo.

Tais mudanças correspondem a uma nova agenda de política industrial, na qual perdem eficácia alguns instrumentos, como barreiras comerciais e índices de nacionalização, e adquirem relevância novos temas, como os de captura e informação assimétrica. No passado, quando o governo decidia promover uma determinada indústria através, por exemplo, de tarifas aduaneiras e estímulos à integração vertical, a avaliação dos efeitos de curto prazo dessa política podia ficar restrita aos impactos sobre os preços domésticos e às transferências de rendas. As consequências sobre os custos de transação, ainda que existentes, podiam ser abstraídas da análise, dado que não afetavam as estratégias dos agentes econômicos. Atualmente, além de ser incluída entre os custos relevantes da proteção, esta parcela precisa ser analisada também sob a ótica das distorções que introduz nas relações interindustriais, ao impedir que as firmas domésticas adotem os padrões de gestão empresarial adequados às tecnologias disponíveis.

Tal como no passado, o objetivo básico da política industrial continua ser o de promover sistemas produtivos eficientes, aptos a acompanhar o rítmo do progresso técnico internacional. De acordo com a teoria microeconômica, uma indústria é eficiente quando sua configuração é sustentável, isto é, quando o número de firmas ali estabelecido e seus respectivos vetores de produção são aqueles que permitem minimizar os custos de atendimento à demanda existente. Ocorre que frequentemente as configurações sustentáveis são oligopólios ou monopólios, o que obriga o governo ao delicado exercício de conciliar os instrumentos de promoção industrial com os da defesa do interesse público. Assim, estratégias industriais restritas ao primeiro objetivo correm o risco de se tornarem prisioneiras do poder econômico das grandes empresas, gerando apenas rendas monopolistas e mercados ineficientes. Entretanto, uma regulação bem sucedida de setores concentrados depende de que seja contornado o problema da assimetria de informações. Para impor uma conduta virtuosa à indústria, o governo precisa de instrumentos que compensem sua ignorância quanto às tecnologias e às estruturas de custos vigentes, cujo conhecimento completo é exclusivo das empresas alí estabelecidas.

Em suma, a atual agenda de política industrial supera em extensão e complexidade o temário que vigorava há cerca de 20 anos. O processo de globalização de mercados está destruindo gradualmente os atrativos do protecionismo convencional, à medida em que acentua a necessidade de mecanismos que compatibilizem as metas de eficiência produtiva, transparência das regras do jogo e bem estar do consumidor, como ilustra o relato a seguir.

III. A Indústria de Telecomunicações

Na literatura sobre teoria da regulação, o setor de telecomunicações é citado recorrentemente. O destaque não é casual, já que este ramo é um dos núcleos de convergência das inovações que estão reunindo sob um único complexo industrial os setores de telefonia, televisão, computadores, software, automação industrial e eletrônica de consumo. Estas inovações criam novos vínculos de insumo-produto e padronizam os requerimentos de qualidade, tanto no interior do complexo quanto em outros segmentos da economia tão diversos como os de editorial e gráfica, bancos, serviços de consultoria e publicidade. No âmbito das condições de concorrência, a convergência tecnológica implica uma contínua revisão dos critérios para dimensionar mercados relevantes, barreiras à entrada, economias de escopo, padrões de produtividade e poder de mercado. Esta seção revê a conduta dos governos do Reino Unido e do Brasil diante destas questões.

III.1. A Experiência Britânica

Entre a vitória da Sra. Thatcher em maio de 1979 e o início de seu terceiro mandato em junho de 1987, a participação das empresas estatais no produto interno bruto do Reino Unido caiu de 11.5% para 7.5%, e mais de quinhentos mil empregados foram transferidos para o setor privado (vide Vickers e Yarrow, 1988). Do ponto de vista da inserção internacional da economia britânica, o principal aspecto a destacar nesse processo foi a redefinição dos instrumentos de política industrial do país. A experiência pioneira ocorreu na indústria de telecomunicações, que serviu de modelo para outros serviços públicos como o suprimento de água, gás e eletricidade, e posteriormente tornou-se referência obrigatória na literatura internacional sobre regulação e concorrência.

Pelas razões apontadas na seção anterior, o processo de privatização no Reino Unido não significou a substituição do Estado pelas forças do mercado, mas uma estratégia de longo prazo visando estabelecer um sistema industrial doméstico apto a acompanhar os novos padrões do progresso técnico internacional. A estratégia incluiu todos os elementos clássicos da política industrial, como a escolha do número de firmas autorizadas a operar no país e a consequente reserva de mercado para os produtores já estabelecidos, controle de preços e da qualidade dos produtos ofertados, e a surpervisão das condições de concorrência vigentes na indústria. Como qualquer empreendimento de longo prazo, a estratégia compreendeu três fases bem delimitadas. A primeira, entre 1981 e 1984, foi a da preparação do novo marco institucional. A antiga empresa estatal British Telecom (BT) foi desvinculada do Post Office e o governo anunciou a intenção de privatizá-la. Outros fatos relevantes desse período incluem a criação da nova agência reguladora, Oftel (Office for Telecommunications), a autorização para que a empresa Mercury entrasse no mercado, a introdução do regime de controle de preços e a venda de 50.2% das ações de BT. A segunda fase, de 1985 a 1991, foi a do amadurecimento do novo modelo de intervenção estatal, quando o setor de telecomunicações esteve restrito ao duopólio BT-Mercury. A fase atual, posterior a 1992, pode ser definida como a da consolidação do modelo. Dentre os eventos mais importantes, cabe destacar a entrada de novas firmas no setor, a privatização do lote final de ações de BT, e o atual processo de compra da empresa americana MCI por BT.

Uma peculiaridade do modelo britânico de privatização foi a de conferir prioridades idênticas aos problemas de promoção industrial e de captura. Por um lado, o Oftel controlava rigorosamente as variáveis definidoras da estrutura industrial e do processo de concorrência, através dos critérios de licenciamento, das normas de qualidade, das regras de fixação de preços e da distribuição de privilégios. Por outro lado, a conduta das firmas estabelecidas na indústria estava também limitada por mecanismos adicionais descritos adiante e pelo papel de reguladores de última instância exercido pelas autoridades de defesa da concorrência, o Office of Fair Trading (OFT) e a Monopolies and Mergers Commission (MMC).

O princípio orientador da estratégia implementada por Oftel foi o de que os níveis de eficiência produtiva de qualquer indústria em determinado momento constituem o resultado dos investimentos e da experiência pregressa acumulados pelas firmas estabelecidas naquele ramo. Assim, em 1982, quando os estudos de mercado indicaram que a configuração sustentável para o setor de telecomunicações no Reino Unido era um duopólio, o Oftel não só autorizou a entrada da Mercury como assegurou que, pelo menos por sete anos, as duas firmas não seriam surpreendidas com a entrada de novos competidores no setor. Além disso, era necessário reduzir o poder de mercado de British Telecom para que o duopólio se tornasse factível. Tal objetivo foi alcançado através da política de preços, da interferência no relacionamento entre os dois concorrentes e da concessão de certas regalias exclusivas à Mercury (vide Cave e Williamson, 1996).

O Oftel estabeleceu um regime de controle de preços engenhoso e simples, conhecido como RPI - X (Retail Price Index com um determinado desconto), que atualmente é utilizado em todas as indústrias reguladas no Reino Unido. O regime tem duas regras básicas:

  1. apenas a empresa líder é controlada, e o teto fixado pelo governo se aplica à media dos preços praticados pela empresa;

  2. o valor de X, isto é, o desconto a ser aplicado sobre o índice de preços ao consumidor, é válido por um amplo período de tempo. Nocaso de telecomunicações, BT esteve submetida a quatro tetos crescentemente restritivos desde 1984: RPI - 3, até 1989; RPI - 4.5, de 1989 a 1991; RPI - 6.25, no período 1991/ 1993; e RPI - 7.5, entre 1993 e 1997.

Segundo o governo, esse regime foi escolhido por três motivos (vide Armstrong et al., 1994, cap. 6). Em primeiro lugar, por ser transparente e pouco vunerável à captura. Em segundo, porque praticamente não envolve custos burocráticos de surpervisão, dada a simplicidade das regras. Em terceiro, porque estimula a eficiência, já que qualquer inovação redutora de custos pode ser apropriada pela empresa líder, ao contrário do que ocorre com outras formas de regulação, como, por exemplo, o controle sobre as margens de lucro. De fato, conforme indica a figura 2, esta hipótese mostrou-se correta. Não obstante todas as restrições que lhe foram impostas, o desempenho de BT após a privatização tem sido notável. Entre 1981 e 1992, seu lucro operacional cresceu a uma taxa anual média de 15%, seu faturamento expandiu-se em cerca de 10% ao ano, enquanto que seu volume de emprego manteve-se praticamente inalterado, com uma leve tendência ao declínio.

Figura 2:

Indicatores de Desempenho de British Telecom (1981—1992)

Fonte: Armstrong et al., 1994

Cabe notar que os indicadores de desempenho descritos na figura 2 foram acompanhados por um significativo aumento na qualidade e na extensão dos serviços de telecomunicações do Reino Unido. Segundo os dados de Oftel, o percentual de chamadas telefônicas interrompidas caiu de 4.3% em 1987 para 0.3% em 1992, enquanto que os serviços de reparo realizados em até dois dias úteis subiram de 74% para cerca de 98% durante o mesmo período. Além disso, o número de domicílios com telefone, que era de apenas 42% em 1972, atingiu a cerca de 90% em 1991 (cf. Armstrong et. al, 1994).




III.2. A Experiência Brasileira

No Brasil, os processos de privatização e de revisão dos instrumentos reguladores do setor de telecomunicações encontram-se ainda em fase inicial, e a comparação com o caso britânico é relevante não só devido aos seus resultados, como também porque auxilia a avaliação da experiência brasileira das últimas três décadas. O marco institucional que orientou a instalação da atual indústria de telecomunicações no Brasil foi definido pela Lei 4117, de dezembro de 1962, que aprovou o Código Brasileiro de Telecomunicações, cujos objetivos gerais eram bastante similares aos do British Telecommunications Act de 1981. Tratava-se de dotar o país dos mecanismos apropriados para o planejamento de longo prazo, visando a expansão e a modernização do setor segundo os novos padrões internacionais de tecnologia (vide Moreira, 1989).

De fato, o novo marco institucional só começou a operar a partir de 1965, com a criação da Empresa Brasileira de Telecomunicações, Embratel, órgão estatal encarregado de explorar com exclusividade as ligações internacionais. O rápido crescimento da Embratel nos anos seguintes foi financiado pelo Fundo Nacional de Telecomunicações (FNT), cujos recursos eram originários do Orçamento da União, das tarifas operacionais e de uma sobretaxa sobre os serviços telefônicos. O principal obstáculo a ser enfrentado naquele momento era o de providenciar a unificação técnica da rede nacional, marcada por grande heterogeneidade de equipamentos, o que resultava em custos operacionais superiores aos padrões internacionais e serviços de qualidade precária.

Os instrumentos adicionais para lidar com esse problema foram providos em seguida pelo Governo. Em 1967 foi constituído o Ministério das Comunicações (Minicom), que passou a centralizar as funções normativas, de planejamento, de financiamento e de fiscalização. Sob a jurisdição do Minicom estavam o Conselho de Telecomunicações (Contel), órgão normativo e de planejamento, a administração do FNT, e a supervisão das empresas do setor, incluindo a Embratel e as companhias telefônicas estaduais. Finalmente, em 1972 o marco institucional estava completo, com a formação da empresa holding Telebrás, cujo papel seria o de harmonizar condutas e distribuir encargos entre as empresas do setor.

A estratégia implementada pelo Minicom nos anos 70 e 80 coincidiu em certos pontos com a do Reino Unido no período posterior a 1979, não obstante as demais peculiaridades de ambas experiências. Conforme vimos, as metas do modelo britânico restringiam-se à eficiência do sistema de telecomunicações e aos mecanismos que assugurassem a transferência dos benefícios alcançados aos consumidores finais. Além disso, como observou Hay (1997), a legislação daquele país é isenta de traços nacionalistas. Qualquer investidor estrangeiro está submetido rigorosamente às mesmas regras que valem para seus competidores locais. No Brasil, o governo definiu o desenvolvimento do setor de telecomunicações como parte de uma estratégia mais ampla que visava corrigir outras deficiências do país, através de investimentos em educação, sobretudo de nível universitário, da expansão do sistema gerador de ciência e tecnologia, e da proteção aos fabricantes locais de bens de capital.

Assim, como descreveu Moreira: "Já no seu primeiro ano de funcionamento, a Telebrás diagnosticava como um dos principais problemas do setor de telecomunicações a dependência tecnológica. Com base nessa avaliação, iniciou um programa de P&D desenvolvido através de projetos conjuntos com grupos universitários, cujos objetivos eram: busca de autonomia tecnológica, formação de recursos humanos para telecomunicações e o fortalecimento do parque industrial nacional. Procurava-se articular um modelo de P&D em que cada um dos seus participantes, vale dizer, o Sistema Telebrás, a universidade e a indústria, tivesse funções definidas. A universidade encarregar-se-ia da formação de recursos humanos, da pesquisa básica e da geração da tecnologia de produto e de processo ao nível de laboratório; às operadoras do Sistema Telebrás caberiam a implantação dos produtos desenvolvidos e o desenvolvimento das rotinas de implantação e manutenção; e, por fim, a fabricação de equipamentos e seus componentes seria de incumbência da indústria (1989, p.65)."

Entre 1973 e 1976, a Telebrás financiou as atividades de cerca de 10 grupos de trabalho em quatro entidades: Universidade de São Paulo (USP), Instituto Tecnológico da Aeronautica (ITA), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Os convênios de pesquisa cobriam desde projetos de amplo escopo nas áreas de fibras ópticas, semicondutores e microeletrônica, até aplicações específicas em temas mais restritos, como, por exemplo, técnicas digitais, codificação por pulsos e radiopropagação. Tais atividades levaram à criação, em 1976, do CPQD, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás, que daí em diante passaria a coordenar a política tecnológica do Minicom. Complementarmente, no plano da política industrial, o poder de compra da Telebrás era usado para acelerar a substituição de importações no setor, com base nos critérios de elevar o conteúdo local dos bens e serviços adquiridos pelo governo, conferir privilégios especiais às firmas sob controle de capitais brasileiros, e incentivar os produtos e processos desenvolvidos no país.

Os resultados produzidos por esses empreendimentos até meados dos anos 80 foram bem inferiores às expectativas iniciais do Minicom, conforme arguiu Moreira (1989), e a crise fiscal que marcou aquela década no país contribuiu para restringir ainda mais as possibilidades de sucesso nos anos subsequentes. Não obstante a magnitude dos investimentos realizados a partir de 1965, a densidade telefônica no Brasil era de apenas 7.3 aparelhos para cada 100 habitantes em 1983, abaixo de outros países como a África do Sul, Argentina e México, e bem distante dos padrões vigentes entre as economias da OECD. Como indica a tabela 1, esta situação permanece praticamente inauterada até os dias atuais.

A principal mensagem advinda de uma comparação entre as experiências britânica e brasileira é a de que os processos de privatização e de reforma dos marcos reguladores implicam uma estratégia industrial cujos ingredientes são bastante familiares ao público brasileiro. De fato, controle de preços, fixação de metas de longo prazo, reserva de mercado e distribuição de privilégios foram medidas aplicadas à maioria dos segmentos industriais do país nos últimos 60 anos. Cabe registrar, contudo, uma ressalva quanto ao foco da estratégia, já que os problemas de telecomunicações são suficientemente complexos para merecerem a atenção exclusiva das autoridades pertinentes, e que as demais deficiências nacionais sejam enfrentadas por outras instâncias do governo e da sociedade.

Tabela 1:
Densidade Telefônica em Países Selecionados
(Telefones/100 habitantes)

País

1983

1995

Suécia

85.6

68.1

Suiça

77.6

61.3

Estados Unidos

71.0

62.6

França

54.1

55.8

Austrália

53.7

51.0

Japão

53.0

48.8

Inglaterra

51.0

50.2

Itália

38.2

43.3

Espanha

33.7

38.5

África do Sul

13.4

9.5

Argentina

9.2

16.0

México

9.0

9.6

Brasil

7.3

7.5

Fontes: Moreira (1989), ITU (1997)

 

IV. Políticas de Comércio Exterior

O Brasil e o Reino Unido são nações com pautas comerciais diversificadas. Em 1995, por exemplo, o comércio exterior britânico tinha a seguinte estrutura: 54% com os demais membros da União Européia, 14% com os países do Nafta, e 32% com o resto do mundo. Naquele ano, a pauta brasileira foi composta de: 16% com os parceiros do Mercosul (inclusive Chile e Bolívia), 23% com o Nafta, e 61% com o resto do mundo. É pertinente, portanto, comparar os instrumentos de política comercial dos dois governos. Esta seção aborda brevemente três aspectos: as tarifas de importação e as políticas para as indústrias de automóveis e de computadores.

No período 1988¤1993, o governo brasileiro implementou uma reforma comercial que mudou radicalmente as condições de concorrência no país. Após seis décadas de crescimento econômico baseado em políticas de substituição de importações, a indústria doméstica foi exposta, pela primeira vez, à concorrência de bens importados. A nova estrutura tarifária visava conferir um nível estável e homogêneo de proteção efetiva ao sistema produtivo. Assim, em julho de 1993 a alíquota média de proteção efetiva era de 14,5%, e apenas alguns setores estavam fora do intervalo 10% — 20%, com a notável exceção da indústria automotiva, cuja alíquota era de 130% (ver Kume, 1996). Todavia, depois de julho de 1994 as regras de importação se tornaram voláteis, a fim de acomodar o volume de comércio exterior às necessidades de curto prazo do Plano Real. Na primeira fase, que durou até dezembro daquele ano, o objetivo do governo era impor um declínio rápido aos preços internos através da valorização da moeda e de reduções tarifárias adicionais para bens que tivessem impacto significativo nos índices de inflação. Produtos alimentícios e insumos básicos foram as metas preferidas, e a conseqüência imediata foi a ampliação da faixa de proteção efetiva, já que alíquotas mais baixas sobre insumos elevam a taxa de proteção dos bens finais.

Em 1995, o principal problema macroeconômico já não era a disciplina dos preços, mas o déficit comercial. E as restrições às importações retornaram. Entre julho de 1994 e setembro de 1996, das 13.428 posições tarifárias que formam o Sistema Harmonizado brasileiro, 11.183 itens foram mudados, dos quais 939 sofreram mais de três variações. Bens de capital e insumos intermediários estiveram entre os mais afetados, sendo suas regras de importação mudadas mais de cinco vezes! (ver Baumann et al., 1997) Dados os vínculos de encadeamento desses setores, essas mudanças significaram preços relativos instáveis para toda a economia. A tabela 2 mostra alguns exemplos de oscilações específicas, que incluíram produtos variados, como automóveis, aparelhos telefônicos, detergentes, pesticidas, filamentos sintéticos e máquinas de embalar.

É razoável supor que essa volatilidade seja transitória, tanto por motivos domésticos quanto pelos compromissos firmados no Mercosul, nas negociações correntes visando criar uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca), e na Organização Mundial do Comércio. A médio prazo, a política comercial brasileira será provavelmente similar à do Reino Unido e de outras economias industrializadas, cujo traço fundamental é a estabilidade das normas de acesso aos mercados. Nos últimos 20 anos, por exemplo, as tarifas britânicas de importação só mudaram em consequência das rodadas multilaterais de negociações do GATT e das decisões tomadas no âmbito da União Européia. Atualmente, a alíquota nominal média aplicada aos países não membros da UE é de 3.7%, com uma distribuição cujo valor máximo para bens manufaturados é de 22%, embora, na maioria dos itens, os valores sejam inferiores a 10% (ver WTO, 1995).

Entretanto, enquanto permanecerem incertas as condições de concorrência no Brasil, as firmas estabelecidas no país estarão incapacitadas de avaliar corretamente suas estruturas de custo, e, em particular, a relação p, entre custos de produção e custos de transação. Consequentemente, não saberão identificar as estratégias mais adequadas para enfrentar a competição internacional, pelas razões que indiquei na seção II. Esta situação cria um círculo vicioso, no qual as regras instáveis geram pressões protecionistas, que por sua vez provocam mudanças adicionais na política comercial.

Tabela 2:
Brasil: Exemplos de Oscilações Tarifárias

Produto¤ Código SH

Evolução do Imposto de Importação (Data¤ Alíquota)

Pesticidas 07/94 09/94 12/94 05/95 11/95 02/96 04/96 08/96
29.26.90.02 15 14 2 4 8 10 2 12
Detergentes 07/94 01/95 05/95 11/95 02/96 04/96 08/96
34.01.19.03 10 11 4 6 8 2 18
Filamentos Sintéticos 07/94 09/94 11/94 04/95 05/95 02/96 04/96 08/96
54.02.49.02 20 16 2 0 6 10 6 16
Máquinas de Embalar 07/94 11/94 01/95 06/95 07/95 01/96
84.22.40.99 20 0 19 0 19 18
Aparelhos Telefônicos 07/94 01/95 03/94 05/95 01/96 04/96
85.17.10.99 30 19 70 63 56 30
Automóveis 07/94 09/94 01/95 02/95 01/96 04/96
87.03 35 20 32 70 62 70

Fonte: Baumann et al. (1997)

 

Nesse contexto de incerteza, a distribuição de benesses governamentais tem obedecido à hierarquia do poder econômico, como bem ilustra a política de importação de automóveis, registrada na tabela 2. Após uma breve tentativa de reduzir a proteção nominal para 20% em setembro de 1994, cinco meses depois o governo elevou a tarifa para 70%, e em dezembro de 1995 criou novos incentivos que superaram os de qualquer outro setor da economia. Através do Decreto nº 1.761, o governo reeditou a coleção de mecanismos clássicos da época da substituição de importações: quotas, níveis mínimos de insumos domésticos, isenções de impostos condicionadas ao desempenho exportador, projetos discriminados por empresas, revisões periódicas dos incentivos, etc.

A indústria automotiva é um oligopólio internacional com longa tradição de influenciar tratados comerciais e políticas nacionais. O pacto Canadá — Estados Unidos de 1965, a política brasileira de promoção de exportações nos anos 70 e 80, o acordo VER entre Estados Unidos e Japão de 1981 e as oscilações tarifárias listadas na tabela 2 são apenas alguns exemplos dessa tradição. Devido ao tamanho da indústria e aos seus vínculos intersetoriais, as decisões de investimento feitas pelas montadoras costumam gerar impactos não só no nível de emprego e nas condições de crescimento macroeconômico, mas também no balanço de pagamentos e no ritmo de progresso técnico do país. Como essas cifras podem ser facilmente transformadas em poder político, os fabricantes de automóveis têm sido capazes de extrair privilégios governamentais no mundo inteiro há várias décadas.

Reconhecendo a importância econômica e o poder político dessa indústria, a União Européia firmou em 1989 um protocolo com as seguintes diretrizes gerais:

  1. Qualquer projeto relacionado à produção de veículos ou de motores que receba auxílio governamental superior a 17 milhões de Ecus está sujeito a notificação prévia à Comunidade. A notificação deve indicar os motivos que levaram o governo a conceder o apoio, bem como a natureza do projeto, a ser classificada segundo as metas perseguidas nas áreas de reestruturação de plantas industriais, desenvolvimento regional, introdução de novos produtos e processos, P&D em estágio pre-competitivo, e custeio de operações correntes da empresa.
  2. Os Estados Membros devem apresentar relatórios anuais descrevendo todos os tipos de suporte concedidos a essa indústria, independentemente de seu valor, seguindo a mesma metodologia aplicada no ítem anterior.
  3. A assistência concedida através do European Investment Bank também é supervisionada.
  4. Com base nessas informações, a Comunidade examina o impacto dos projetos nos âmbitos macroeconômico, setorial, regional e social. Todavia, a avaliação final focaliza primordialmente as distorções provocadas nas condições de concorrência, tanto entre as firmas européias como em relação ao resto do mundo.

Tal como no caso das tarifas aduaneiras, o governo brasileiro provavelmente adotará, a médio prazo, normas similares às do protocolo europeu, em virtude dos projetos de integração regional no âmbito do Mercosul e da Alca. Cabe notar, outrossim, que a proteção aos automóveis gera danos menores à sociedade brasileira do que a alíquota de 30% sobre as importações de computadores e outros produtos da indústria de informática. No primeiro caso, a despeito da magnitude dos custos de proteção, estes estão circunscritos aos preços e à qualidade dos carros vendidos no Brasil, e às margens de lucro das montadoras. No segundo caso, a medida não apenas onera genericamente os empreendimentos produtivos do país como dificulta outras atividades nas áreas da cultura e do lazer.

Se comparada ao radicalismo da política de reserva de mercado que vigorou na década passada, a tarifa atual pode parecer razoável, sobretudo levando-se em conta que ela também é formalmente transitória. Segundo os compromissos acordados no Mercosul, até 2006 a alíquota brasileira deverá convergir em direção à Tarifa Externa Comum, cujos níveis, neste caso, variam entre 2 e 16%, dependendo do tipo de equipamento. Entretanto, se examinado sob a ótica das transformações tecnológicas discutidas na seção II (ver figura 1, pag. 4), um ônus de 30% sobre um insumo estratégico é suficiente para anular a racionaliade econômica de diversas atividades, particularmente aquelas mais sensíveis às variações nos custos de transação. Neste aspecto, o Brasil diverge do Reino Unido e dos demais 39 signatários do Acordo de Singapura, de dezembro de 1996, que eliminará os impostos de importação sobre produtos de informática até o ano 2000. Este grupo inclui países como Coréia do Sul, India e Japão, que até recentemente eram usuários tradicionais de políticas de crescimento baseadas em alíquotas aduaneiras.

V. Conclusão

Os estilos de inserção internacional das economias brasileira e britânica são convergentes em vários aspectos, como a abertura de mercados, a diversificação os parceiros comerciais, a regulação de serviços públicos e a participação em projetos regionais de integração. Em ambos os países existe uma longa tradição de intervenção estatal na economia, cujos instrumentos encontram-se em fase de adaptação às condições geradas pelos processos de globalização de mercados e regionalização das estruturas produtivas. Conforme vimos, a agenda de política industrial dos anos 90 expandiu-se e tornou-se mais sofisticada do que a de décadas anteriores. Existem, entretanto, três características divergentes entre os dois estilos, quanto à forma de conciliar o interesse público com a promoção industrial, à estabilidade das regras do jogo, e à coerência entre as diversas ações do governo. Nos três pontos o exemplo do Reino Unido serve de paradigma para orientar a conclusão das reformas em curso no Brasil.

 


Referências

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